De todos os encontros que a vida me trouxe, o maior dos desencontros foi o nosso. Eu, menina nova, apaixonei-me pela pessoa que vi em você e tu encantaste pela pessoa que eu poderia ser. Mas nem tudo o que se vê condiz com a realidade, nem todas as possibilidades se concretizam. Nossas expectativas, acima de nossos erros, foram culpadas das nossas mágoas.
Pois imagine o espanto, depois de tanto tempo, ver-te do outro lado da rua, do mesmo jeito que eu sempre lembrei de você. Bermuda, regata, boné e piercing combinados com um açaí de 500 ml, leite condensado e em pó. A mesma magreza de dar inveja, o mesmo sorriso despreocupado, os pés meio sujos de quem só anda de chinelos. Passei reto. Passei rápido.
Quando cheguei na outra esquina, parei. Por que estou suando tanto? Já faz tanto tempo! Que bobeira, melhor voltar e cumprimentar.
Voltei e busquei dentro de mim a atriz que aqui vive reprimida. Após minha atuação de surpresa por ali encontrar-te, percebi porque guardo essa minha versão teatral nas profundezas do meu ser: ela é péssima! Essa atriz que vive em mim sorriu e abraçou como quem vê um grande amigo após meses de viagem. Beijinhos na bochecha. Agora uma pausa para olhar fundo nos olhos enquanto pensamos no que dizer. Ponho uma mecha atrás da orelha e vomito o óbvio: você continua o mesmo!
A conversa não se estendeu muito. Nos despedimentos combinando de marcar de fazer algo - provavelmente nunca. Então percebi porque suei como uma porca ao ver-te: você em nada mudou. Refiz todas as predições de antes: logo se cansará dessa vida boêmia, vai levar os estudos a sério, ou arrumar um emprego legal...
Talvez quem não tenha mudado seja eu.