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domingo, 9 de abril de 2017

V.

   V. foi o primeiro. Estava na aula de inglês, havia há pouco sido trocada de sala: para minha sorte, saí de uma sala repleta de colegiais para outra com ainda muitos, porém bem menos. Foram pouquíssimas as aulas que fizemos juntos, mas ele chamou a minha atenção desde a primeira. Sorriso bonito, ombros largos e peitoral desenvolvido, ele expirava uma certa malemolência - Wesley Safadão o descreveu como poucos: 99% anjo, perfeito, mas aquele 1% vagabundo.
   Trocamos duas ou três palavras. Um dia chegamos atrasados e ambos não sabíamos em qual sala estava nossa turma. Eu não tinha certeza se ele era da minha sala, e penso que ele também não sabia sobre mim. Acho que o segui até a sala, sem trocarmos uma palavra sequer.
   Durante a aula, fomos colocados no mesmo grupo, e após saber que ele é de Fortaleza, puxei assunto: você é do ITA? Ele disse que sim, mas não prolongou a conversa.
   Eu o procurei na internet, ele havia me instigado, porém pouco descobri. Pedi para ser amiga no Facebook, no entanto, nunca fui aceita. Vinguei-me bloqueando-o.
   Passei dias ansiosa para as aulas de inglês. Arrumava-me de maneira mais jovem, gostava de me imaginar com um ar descontraído-sexy. Pena, porém, que ele nunca pode apreciar: nunca mais apareceu para o curso.
   Fiquei a ver navios. Minha obsessão teve vida breve: desprovida de meios para obter novas informações, nunca aceita no Facebook, jamais curtida no Tinder, restaram-me apenas as informações mínimas: nome V. L., idade 23, natural de Fortaleza, amigo de R-alagoano-ex-paixão-da-M, provável otário, fã de Safadão. 

sábado, 8 de abril de 2017

Saturno

"Sou todas as séries da Netflix a que assisti nos últimos 366 dias, porque nos dois primeiros eu chorei." (Jéssica Balbino)

   Hoje percebi que faz exatamente 3 meses e 1 dia que nos vimos pela última vez. Talvez por isso essa frase tenha me tocado, porque ela tanto se relaciona com o que sinto: uma saudade preciosista que conta horas e sofre pelos segundos, mas que se recusa a agir. 

Preciso (re)contar suas sardas

   Quinta é nosso dia e sempre que ela chega, penso em nós. A cada notificação de mensagem, torço pelo seu nome na tela - pode ser um breve "oi" ou um convite para sair, tanto faz, apenas quero que se comunique. Idealmente você me ligaria, por descuido, por isso eu apenas veria o indício de uma ligação perdida, sem sequer o celular ter chegado a tocar. Eu então mandaria mensagem, perguntando se está tudo bem - ao que você responderia que sim e diria que a ligação foi engano. Meu instinto gritaria para que eu deixasse a conversa morrer aí, talvez no máximo responder que aqui também está tudo bem e olhe lá. Mas meu coração enxergaria nossa situação como providência divina e daria jeito de não deixar chance tamanha passar: confessaria "veja só, aqui não está nada bem, contei os segundos e vi que fazem milhares que não nos falamos, além disso, temo que minha memória já tenha perdido a precisão sobre a disposição das suas sardas - precisamos nos ver!". 
   Você visualizaria a mensagem porque, grande desse jeito, teria que abrir a conversa para lê-la. O arrependimento seria instantâneo e ao me ver ainda online, o desespero faria você sair o mais depressa do Whatsapp. Justíssimo. Logo um de nós mandaria uma risada, para clarear o clima e tudo ficaria por isso mesmo. Talvez você dissesse, de maneira amena, que também sentia minha falta, mas sem grandes profusões, seria uma declaração polida, daquelas para não deixar o outro sem graça. Eu ficaria confusa, me perguntaria se seria possível que de fato tudo fosse somente um grande engano - desde você entrar em nossa conversa até me telefonar. Concluiria que sim. Não acreditaria por completo em minha própria conclusão, mas entraria em consenso comigo que esse é o melhor.

   Se nem em meus delírios terminamos juntos, é pedir demais que na realidade nosso último beijo ainda esteja por vir. 

Palavras inauditas

   Outro dia ela me disse: nossas luas não se entendem, amo em gêmeos e ele em capricórnio. Amo nos ares, nas ideias, e mudo. Ele ama no chão, nos gestos, e persiste. Falo aspirações, construo raciocínios e explico sentimentos. Ele não fala: age; faz; não entende, vive. Por isso, desisto, porque não encontro correspondência. Já ele persiste mesmo pensando estar só, quando finalmente saio de cena, ele entende que nem todas as edificações são materiais e mensuráveis, muitas encontram-se no reino das palavras inauditas - mas daí, já é tarde, parti. 

terça-feira, 4 de abril de 2017

Autorreflexos em espelhos d'outrem

   Não é estranho que algumas pessoas tenham sobre nós certezas que nós mesmos nunca tivemos? Lembro de uma sogra que afirmou, sem saber que era meu sonho, que eu faria pós-graduação; um amigo, que na minha dúvida sobre se eu ficaria isolada, teve certeza que não. Às vezes precisamos emprestar a visão alheia para enxergarmos a nós com maior precisão - e positividade. 

Rebobinem os filmes!

   Eu sei que um dia vou acordar, vou ver que há notificações no ícone do Whatsapp e não vou pensar em você. Esse dia será bom, mas eu não poderei saborear toda a felicidade, porque aí que está: terei te esquecido. Mas enquanto não esqueço, serei sincera, não é por esse cenário que anseio. Rebobinemos a cena: eu sei que um dia eu vou acordar, vou ver que há notificações no ícone do Whatsapp e descobrirei que enquanto eu sonhava com você, do outro lado da cidade você me enviava mensagens em uma noite insone. Não precisam ser mensagens reveladoras, aceito as acanhadas - na verdade, ficaria feliz até com umas por engano.
      Por favor, só escreva logo.
         Escreva depressa.
            Não me deixa te esquecer. 

Manual

   Na última vez que nos encontramos, gelei. Quis mentir para você – e para mim – que o mal jeito foi culpa da semana ruim. Mas eu sei – apesar de você não suspeitar – que, em verdade, não sei agir com você por perto. Minha mente paralisa, minhas pernas não me obedecem e sinto um medo aterrorizador que, no entanto, não me faz correr seja para você seja de você. O estado catatônico disfarço em sorrisos blasé, que tanto não combinam comigo nem com os sentimentos que tenho por você. Por isso, se pudesse, toda vez que isso ocorresse, gostaria que você não me deixasse ir sem esboçar um sorriso, sem te dar um abraço, sem dizer palavras de carinho e perguntar como você está. Quero que você perceba o que minhas entranhas e meus olhos transbordam – não ouça meus lábios, escute com atenção meu coração; não observe meus gestos, acompanhe somente o meu olhar. 

Million Reasons

   Sou esotérica, não minto nem tento disfarçar. Das manias mais malucas e deuses mais improváveis, talvez o mais insensato seja o que escolhe músicas para mim. Sim, músicas. Escolho esses tocadores de música modernos, desses que baixamos em nossos celulares, e peço, na opção online e modo aleatório, que o aplicativo selecione uma música para mim. Detalhe: a música é resposta para um questionamento profundo. Pois bem, saiba você que nossa música nas últimas duas vezes que pedi foi Million Reasons, da Lady Gaga. Pergunto-me seu significado: será que se você agir eu volto ou será que é você quem volta se eu agir? Tenho minhas dúvidas. A lógica dez ser a primeira opção, a loucura a segunda. Mas tratando-se da razão de uma louca, não seria a loucura o mais crível e a lógica o mais próximo da insanidade? Antes disso, foi nossa música Wide Awake, da Katy Perry, e não sei se temi mais pelo meu ou pelo seu coração - apesar que, pela minha pergunta, deveria ser o seu. Também sobre o que você sente por mim, já tirei We Are Never Ever..., da Taylor - mas essa eu ignoro, porque o nunca é muito tempo para um sagitariano com lua em gêmeos. Em verdade, nossa primeira música corriqueira foi Contagious, da Avril Lavigne, que, admito, é muito apropriada para nós, pois você é bem mal quisto pela maioria que conheço e é dificílimo explicar minha mania de você - só uma doença mesmo para justificar. Mas, baby, te peço: give me a reason.