sábado, 8 de abril de 2017

Preciso (re)contar suas sardas

   Quinta é nosso dia e sempre que ela chega, penso em nós. A cada notificação de mensagem, torço pelo seu nome na tela - pode ser um breve "oi" ou um convite para sair, tanto faz, apenas quero que se comunique. Idealmente você me ligaria, por descuido, por isso eu apenas veria o indício de uma ligação perdida, sem sequer o celular ter chegado a tocar. Eu então mandaria mensagem, perguntando se está tudo bem - ao que você responderia que sim e diria que a ligação foi engano. Meu instinto gritaria para que eu deixasse a conversa morrer aí, talvez no máximo responder que aqui também está tudo bem e olhe lá. Mas meu coração enxergaria nossa situação como providência divina e daria jeito de não deixar chance tamanha passar: confessaria "veja só, aqui não está nada bem, contei os segundos e vi que fazem milhares que não nos falamos, além disso, temo que minha memória já tenha perdido a precisão sobre a disposição das suas sardas - precisamos nos ver!". 
   Você visualizaria a mensagem porque, grande desse jeito, teria que abrir a conversa para lê-la. O arrependimento seria instantâneo e ao me ver ainda online, o desespero faria você sair o mais depressa do Whatsapp. Justíssimo. Logo um de nós mandaria uma risada, para clarear o clima e tudo ficaria por isso mesmo. Talvez você dissesse, de maneira amena, que também sentia minha falta, mas sem grandes profusões, seria uma declaração polida, daquelas para não deixar o outro sem graça. Eu ficaria confusa, me perguntaria se seria possível que de fato tudo fosse somente um grande engano - desde você entrar em nossa conversa até me telefonar. Concluiria que sim. Não acreditaria por completo em minha própria conclusão, mas entraria em consenso comigo que esse é o melhor.

   Se nem em meus delírios terminamos juntos, é pedir demais que na realidade nosso último beijo ainda esteja por vir. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário